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  • O Machado de Xangô como Símbolo de Discernimento

    O Machado de Xangô como Símbolo de Discernimento

    A consciência que separa excesso de verdade, impulso de justiça e orgulho de autoridade

    O machado de Xangô não deve ser visto apenas como um instrumento de força.

    Em sua dimensão simbólica, ele é uma imagem profunda de discernimento.

    O machado duplo representa a consciência capaz de separar o que está misturado dentro da alma: verdade e excesso, justiça e vingança, firmeza e dureza, autoridade e orgulho, limite e agressão.

    No campo de Xangô, discernir é aprender a olhar para uma situação sem ser completamente dominado por ela.

    É perceber que nem toda reação nasce da justiça.
    Nem toda certeza nasce da verdade.
    Nem toda força nasce da maturidade.
    Nem todo silêncio nasce da paz.
    Nem toda fala firme nasce da consciência.

    O machado de Xangô corta a confusão.

    Mas esse corte, quando compreendido com responsabilidade espiritual, não é destruição.
    É clareza.

    O machado duplo e os dois lados da consciência

    O machado de Xangô possui duas lâminas.

    Simbolicamente, essas duas lâminas podem representar a necessidade de olhar para os dois lados de uma situação antes de agir.

    Uma lâmina olha para fora.
    A outra olha para dentro.

    Uma lâmina pergunta:

    o que aconteceu?
    qual foi a injustiça?
    qual verdade precisa ser vista?
    qual limite precisa ser colocado?

    A outra lâmina pergunta:

    como estou reagindo?
    minha intenção está limpa?
    estou buscando justiça ou tentando ferir?
    estou agindo por consciência ou por orgulho?

    Esse é o verdadeiro discernimento.

    Não é apenas enxergar o erro externo.
    É também perceber o próprio estado interior diante do erro.

    Porque uma pessoa pode estar diante de uma situação injusta e, ainda assim, responder a ela de modo desalinhado.

    Xangô ensina que a justiça precisa de eixo.

    Separar verdade de excesso

    Uma das primeiras funções simbólicas do machado de Xangô é separar a verdade do excesso.

    A verdade é aquilo que precisa ser reconhecido.
    O excesso é aquilo que a dor acrescenta à verdade.

    Por exemplo:

    A verdade pode ser:
    “Eu fui ferido.”

    O excesso pode ser:
    “Por isso, tenho o direito de ferir de volta.”

    A verdade pode ser:
    “Esta situação foi injusta.”

    O excesso pode ser:
    “Nada mais pode ser visto além da minha dor.”

    A verdade pode ser:
    “Eu preciso colocar um limite.”

    O excesso pode ser:
    “Vou colocar esse limite com raiva, punição e humilhação.”

    O discernimento espiritual começa quando conseguimos honrar a verdade sem alimentar o excesso.

    O machado de Xangô corta essa mistura.

    Ele nos ajuda a dizer:

    isto é verdadeiro.
    isto é dor.
    isto é excesso.
    isto precisa ser visto.
    isto precisa ser entregue.

    Quando a verdade é separada do excesso, ela se torna mais limpa.
    E quando a verdade se torna mais limpa, a ação também se torna mais justa.

    Separar justiça de vingança

    Xangô é senhor da justiça, mas sua justiça não deve ser confundida com vingança.

    A vingança nasce quando a ferida deseja se tornar sentença.

    Ela não quer apenas equilíbrio.
    Quer retorno da dor.
    Quer ver o outro sofrer.
    Quer transformar o sofrimento recebido em sofrimento devolvido.

    A justiça é diferente.

    A justiça busca restauração da ordem.
    Busca verdade.
    Busca consequência.
    Busca limite.
    Busca clareza.
    Busca correção.

    A vingança prende a alma ao conflito.
    A justiça devolve a alma ao eixo.

    Por isso, quando alguém se aproxima do campo de Xangô pedindo justiça, precisa também permitir que o machado simbólico toque sua própria intenção.

    É preciso perguntar:

    quero que a verdade apareça ou quero alimentar minha raiva?
    quero equilíbrio ou quero compensação emocional?
    quero correção ou quero punição?
    quero liberdade ou quero continuar preso ao conflito?

    O machado de Xangô corta a vingança para que a justiça possa permanecer.

    Separar impulso de decisão consciente

    Muitas vezes, diante de uma injustiça, sentimos urgência.

    Urgência de responder.
    Urgência de explicar.
    Urgência de provar.
    Urgência de confrontar.
    Urgência de resolver tudo naquele instante.

    Mas nem toda urgência é sabedoria.

    O impulso nasce do corpo tomado pela emoção.
    A decisão consciente nasce da alma recolocada no eixo.

    O impulso pode até conter uma verdade, mas costuma vir misturado com pressa, medo, raiva ou orgulho.

    O discernimento pergunta:

    esta ação precisa acontecer agora?
    estou preparado para sustentar as consequências?
    minha palavra está limpa?
    meu corpo está em estado de presença ou de reação?
    essa atitude corrige o caminho ou apenas descarrega uma tensão?

    O machado de Xangô não corta apenas situações externas.
    Ele corta também a pressa que nos faz agir fora de nós mesmos.

    Às vezes, o primeiro corte justo é não responder imediatamente.

    Respirar pode ser um ato de força.
    Esperar pode ser um ato de discernimento.
    Silenciar por algumas horas pode impedir que uma palavra injusta seja lançada.

    No campo de Xangô, a força verdadeira não é perder o controle.
    É conseguir sustentá-lo sem abandonar a verdade.

    Separar orgulho de autoridade

    Autoridade espiritual não é superioridade.

    Essa é uma das grandes lições do machado de Xangô.

    Muitas pessoas confundem autoridade com controle, firmeza com dureza, liderança com imposição, verdade com domínio.

    Mas autoridade real nasce de alinhamento.

    Quem possui autoridade interior não precisa esmagar o outro para se afirmar.
    Não precisa gritar para ser ouvido.
    Não precisa humilhar para corrigir.
    Não precisa provar força o tempo todo.

    A autoridade madura é firme, mas não vaidosa.
    É clara, mas não cruel.
    É forte, mas não arrogante.
    É presente, mas não dominadora.

    O orgulho quer estar certo.
    A autoridade quer estar alinhada.

    O orgulho quer vencer.
    A autoridade quer ordenar.

    O orgulho deseja reconhecimento.
    A autoridade sustenta responsabilidade.

    O machado de Xangô separa essas forças dentro de nós.

    Ele pergunta:

    minha postura nasce da dignidade ou da vaidade?
    estou colocando limite ou tentando controlar?
    estou defendendo a verdade ou defendendo minha imagem?
    quero conduzir com justiça ou dominar pela força?

    Essa pergunta é essencial para qualquer pessoa que deseje caminhar com Xangô de forma madura.

    Separar limite de agressão

    Colocar limites é necessário.

    Mas limite não é agressão.

    O limite diz:
    “até aqui eu posso permanecer.”

    A agressão diz:
    “eu quero ferir porque me sinto ferido.”

    O limite protege a dignidade.
    A agressão espalha a dor.

    O limite nasce da clareza.
    A agressão nasce do descontrole.

    O limite pode ser firme e amoroso.
    A agressão pode se disfarçar de sinceridade.

    No campo de Xangô, o limite é uma expressão de justiça interior.

    Quando colocamos um limite verdadeiro, dizemos à vida:

    eu reconheço meu valor.
    eu honro minha consciência.
    eu não preciso odiar para me retirar.
    eu não preciso destruir para me proteger.

    O machado de Xangô corta a confusão entre limite e ataque.

    Ele ajuda a alma a compreender que ser firme não exige perder a própria nobreza.

    O machado como instrumento de clareza

    O machado, simbolicamente, abre caminho.

    Ele corta o que está emaranhado.
    Remove o que impede a passagem.
    Separa o que foi confundido.
    Interrompe o que já não serve à verdade.

    No caminho espiritual, muitos nós internos precisam ser cortados:

    o medo de se posicionar;
    a culpa por dizer não;
    o hábito de agradar para evitar conflitos;
    a raiva acumulada;
    a necessidade de provar valor;
    a repetição de padrões injustos;
    a dependência da aprovação externa;
    a confusão entre amor e submissão;
    a confusão entre espiritualidade e fuga.

    O machado de Xangô não corta a vida para empobrecê-la.

    Ele corta para libertar movimento.

    Há caminhos que só se abrem quando algo é interrompido com consciência.

    Discernimento não é frieza

    Discernir não significa deixar de sentir.

    Uma pessoa com discernimento continua humana.
    Sente dor, tristeza, indignação, cansaço e dúvida.

    A diferença é que ela não entrega automaticamente o comando da própria vida a esses estados.

    Discernimento é sentir e observar.
    É acolher e separar.
    É reconhecer a emoção sem permitir que ela governe todas as escolhas.

    No campo de Xangô, o coração não precisa ser congelado para ser justo.

    A justiça espiritual não pede ausência de sentimento.
    Pede consciência sobre o sentimento.

    Você pode sentir raiva e ainda escolher não ferir.
    Pode sentir tristeza e ainda dizer a verdade.
    Pode sentir medo e ainda colocar um limite.
    Pode sentir amor e ainda reconhecer que uma situação não é justa.
    Pode sentir saudade e ainda não retornar ao que te destrói.

    Essa é a lâmina madura do discernimento.

    Ela não nega o coração.
    Ela o orienta.

    O machado e a palavra justa

    A palavra é um dos campos onde o machado de Xangô mais atua.

    Antes de falar, o discernimento corta o excesso.

    Ele pergunta:

    isso precisa ser dito?
    isso precisa ser dito agora?
    isso precisa ser dito dessa forma?
    isso nasce da verdade ou da vontade de ferir?
    isso abre caminho ou fecha ainda mais o coração?

    Nem toda palavra verdadeira é uma palavra justa.

    Uma verdade dita fora de tempo pode virar violência.
    Uma verdade dita com orgulho pode virar humilhação.
    Uma verdade dita sem escuta pode virar imposição.

    A palavra justa tem três raízes:

    verdade, medida e responsabilidade.

    Verdade para não mentir.
    Medida para não exceder.
    Responsabilidade para sustentar o que se diz.

    Quando a palavra passa pelo machado de Xangô, ela se torna mais limpa.

    Menos reativa.
    Mais firme.
    Menos inflamada.
    Mais consciente.

    O machado duplo como equilíbrio entre dois mundos

    O machado de duas lâminas também pode ser visto como equilíbrio entre dimensões complementares:

    força e sabedoria;
    fogo e pedra;
    ação e espera;
    limite e compaixão;
    verdade e silêncio;
    justiça e misericórdia;
    autoridade e humildade;
    coragem e prudência.

    A maturidade espiritual não está em escolher sempre um lado e rejeitar o outro.

    Está em perceber qual força é necessária em cada momento.

    Há momentos em que é preciso falar.
    Há momentos em que é preciso calar.

    Há momentos em que é preciso agir.
    Há momentos em que é preciso esperar.

    Há momentos em que é preciso permanecer.
    Há momentos em que é preciso sair.

    Há momentos em que é preciso acolher.
    Há momentos em que é preciso limitar.

    O discernimento é essa capacidade de pesar o momento com honestidade.

    Por isso, Xangô também é equilíbrio.

    Não equilíbrio como passividade, mas como presença lúcida diante da vida.

    Quando o machado precisa cortar dentro de nós

    Às vezes, queremos que o machado de Xangô corte apenas aquilo que vem de fora.

    Mas seu corte mais profundo, muitas vezes, acontece dentro.

    Ele corta a mentira que contamos a nós mesmos.
    Corta a justificativa que já não convence a alma.
    Corta a repetição de escolhas que nos afastam do centro.
    Corta o orgulho que impede o pedido de perdão.
    Corta a culpa que paralisa sem transformar.
    Corta o medo que nos faz aceitar menos do que é justo.
    Corta a fantasia de que alguém virá fazer por nós aquilo que precisamos assumir.

    Esse corte pode ser desconfortável.

    Mas é libertador.

    Porque tudo aquilo que permanece misturado dentro de nós rouba energia, clareza e direção.

    Quando o machado corta, o caminho aparece.

    Uma prática simbólica com o Machado de Xangô

    Reserve alguns minutos em silêncio.

    Sente-se com a coluna firme, mas sem rigidez.
    Respire profundamente três vezes.
    Sinta os pés, o corpo, o peito e a garganta.

    Imagine diante de você uma grande pedra escura.
    Sobre essa pedra repousa um machado duplo, iluminado por uma luz vermelho-dourada.

    Esse machado não ameaça.
    Ele esclarece.

    Agora traga à consciência uma situação em que você precisa de discernimento.

    Não tente resolver tudo.
    Apenas observe.

    Pergunte interiormente:

    o que é verdade nesta situação?
    o que é excesso da minha dor?
    o que é justiça?
    o que é desejo de vingança?
    o que é limite?
    o que é agressão?
    o que é autoridade?
    o que é orgulho?

    Respire.

    Imagine que o machado de Xangô toca suavemente o centro da situação e separa os fios que estavam confundidos.

    De um lado, fica o que é verdade.
    Do outro, fica o que é excesso.

    De um lado, fica o que precisa ser dito.
    Do outro, o que precisa ser silenciado.

    De um lado, fica o passo justo.
    Do outro, a reação que não precisa mais governar você.

    Agora diga:

    Xangô, firma em mim o machado do discernimento.
    Que eu separe verdade de excesso.
    Que eu separe justiça de vingança.
    Que eu separe autoridade de orgulho.
    Que eu separe limite de agressão.
    Que minha força seja limpa.
    Que minha palavra seja justa.
    Que meu caminho volte ao eixo.

    Permaneça em silêncio por alguns instantes.

    Depois, anote uma frase simples:

    “O passo justo agora é…”

    Não force uma resposta perfeita.
    Permita que ela amadureça.

    O discernimento como devoção

    Discernir também é uma forma de devoção.

    Porque a devoção não está apenas na oração, na vela, no canto ou na saudação.

    Ela está na escolha de não agir pela sombra.
    Na decisão de não usar a força para ferir.
    Na coragem de reconhecer o próprio excesso.
    Na humildade de corrigir a rota.
    Na firmeza de colocar limites sem ódio.
    Na responsabilidade de honrar a palavra.

    Quando a consciência separa o que estava confundido, a vida se torna mais justa.

    Não porque tudo ao redor muda imediatamente.
    Mas porque a alma deixa de caminhar tomada por forças misturadas.

    Xangô nos ensina que a justiça começa quando a consciência aprende a pesar, separar e escolher.

    Palavra de fechamento

    O machado de Xangô é símbolo de força, mas também de profunda sabedoria.

    Ele não representa apenas o poder de cortar.
    Representa a responsabilidade de saber o que deve ser cortado, quando deve ser cortado e de que modo esse corte pode servir à justiça sem perder a consciência.

    Que o machado de Xangô nos ajude a separar a verdade do excesso, a justiça da vingança, o limite da agressão, a autoridade do orgulho e a força da brutalidade.

    Que nossa palavra seja mais limpa.
    Que nossa decisão seja mais madura.
    Que nossa presença seja mais firme.
    Que nossa espiritualidade seja mais responsável.

    Nem todo corte precisa ferir.

    Alguns cortes libertam.
    Alguns cortes esclarecem.
    Alguns cortes devolvem a alma ao caminho.

    Kaô Kabecilê, Xangô.

    Que o machado do discernimento abra o caminho da verdade.
    Que a justiça venha com equilíbrio.
    Que a força sirva à consciência.
    Que o coração permaneça firme, mas não endurecido.

  • Xangô e a Justiça Interior

    Xangô e a Justiça Interior

    A justiça que começa dentro da alma

    Antes de pedir justiça ao mundo, existe uma pergunta silenciosa que Xangô coloca diante da alma:

    o que ainda precisa ser alinhado dentro de mim?

    Muitas vezes, quando pensamos em justiça, olhamos imediatamente para fora. Pensamos em situações mal resolvidas, em palavras recebidas, em pessoas que nos feriram, em escolhas de outros que nos afetaram, em desequilíbrios que parecem exigir uma resposta da vida.

    Mas a força de Xangô não atua apenas como justiça externa.

    Xangô também acende uma luz sobre o campo interior.
    E essa luz não vem para humilhar.
    Vem para revelar.
    Vem para ordenar.
    Vem para devolver eixo.

    A justiça interior começa quando a alma deixa de fugir da própria verdade.

    Quando a justiça começa em mim

    Há uma justiça que não depende do outro mudar.

    Ela começa quando eu reconheço aquilo que estou sustentando sem verdade.
    Quando percebo onde me calei por medo.
    Onde falei por impulso.
    Onde aceitei menos do que minha alma sabia ser digno.
    Onde exigi do outro uma responsabilidade que eu mesmo ainda não assumi.
    Onde confundi paciência com abandono de mim.
    Onde confundi força com endurecimento.

    Xangô nos ensina que toda vida precisa de eixo.

    Sem eixo, a força vira reação.
    Sem eixo, a palavra vira arma.
    Sem eixo, o silêncio vira omissão.
    Sem eixo, a fé vira fuga.
    Sem eixo, a busca por justiça pode se transformar em desejo de controle.

    Por isso, antes de perguntar “quem está certo?”, talvez o caminho espiritual pergunte:

    estou inteiro diante da verdade?

    Justiça não é vingança

    A justiça de Xangô não deve ser confundida com vingança.

    Vingança nasce da ferida que ainda quer ferir.
    Justiça nasce da consciência que deseja restaurar a ordem.

    Vingança quer que o outro sofra.
    Justiça quer que a verdade apareça.

    Vingança prende a alma ao conflito.
    Justiça liberta a alma do engano.

    Vingança alimenta o fogo da revolta.
    Justiça acende o fogo da clareza.

    Quando invocamos Xangô apenas para que algo aconteça contra alguém, podemos estar entrando no campo da força sem ainda termos atravessado o portal da maturidade.

    A pergunta mais profunda não é apenas:

    “o que o outro fez comigo?”

    Mas também:

    “o que esta situação está me mostrando sobre meus limites, minhas escolhas, minha palavra e meu caminho?”

    A pedra da consciência

    Xangô é associado à pedra.

    A pedra não se curva ao vento.
    Não se desfaz com qualquer ruído.
    Não corre atrás da tempestade.
    Ela permanece.

    Essa pedra simboliza a consciência firme.

    A justiça interior nasce quando encontramos essa pedra dentro de nós: um lugar que não precisa reagir a tudo, provar tudo, vencer tudo ou explicar tudo.

    Um lugar que sabe dizer:

    eu vejo.
    eu reconheço.
    eu aprendo.
    eu corrijo.
    eu sigo com mais verdade.

    A pedra da consciência nos ajuda a não agir apenas pelo calor da emoção. Ela nos convida a esperar o tempo necessário para que a resposta venha com retidão, não com desespero.

    O fogo da verdade

    O fogo de Xangô também é fogo de revelação.

    Ele ilumina aquilo que tentamos esconder de nós mesmos:

    A palavra que não cumprimos.
    O limite que não colocamos.
    A decisão que adiamos.
    A culpa que carregamos sem transformar.
    A raiva que chamamos de justiça.
    A omissão que chamamos de paz.
    O orgulho que chamamos de força.

    Esse fogo pode incomodar, porque a verdade nem sempre chega confortável.

    Mas a verdade que vem de Xangô não vem para destruir a alma.
    Vem para purificar o caminho.

    Ela queima a ilusão.
    Clareia a intenção.
    Mostra onde há excesso.
    Mostra onde há desvio.
    Mostra onde é preciso voltar.

    E voltar ao eixo não é fracassar.

    Voltar ao eixo é um ato de maturidade.

    A palavra como compromisso espiritual

    No campo de Xangô, a palavra tem peso.

    Aquilo que dizemos constrói caminho.
    Aquilo que prometemos cria responsabilidade.
    Aquilo que repetimos alimenta um campo.
    Aquilo que calamos também comunica.

    Por isso, a justiça interior passa pela palavra.

    É preciso observar:

    Tenho falado com verdade?
    Tenho prometido mais do que posso sustentar?
    Tenho usado minha fala para ferir?
    Tenho silenciado quando a verdade precisava ser dita?
    Tenho usado a espiritualidade para justificar aquilo que minha consciência já sabe que precisa ser corrigido?

    Xangô nos ensina que a palavra justa não precisa ser agressiva.

    Ela pode ser firme e limpa.
    Direta e amorosa.
    Clara e responsável.

    A palavra justa não nasce para vencer uma discussão.
    Nasce para honrar a verdade.

    Quando a vida pede correção de rota

    Há momentos em que a justiça interior se manifesta como uma correção de rota.

    Não como castigo.
    Não como fracasso.
    Não como vergonha.

    Mas como chamado.

    A vida mostra onde algo perdeu equilíbrio.
    Um relacionamento revela um padrão.
    Um conflito revela uma ferida.
    Uma demora revela uma ansiedade.
    Uma perda revela um apego.
    Uma injustiça revela a necessidade de limite.
    Uma repetição revela uma lição ainda não integrada.

    Xangô aparece, simbolicamente, nesses momentos em que já não é possível continuar fingindo que não sabemos.

    Algo dentro diz:

    agora é hora de amadurecer.

    E amadurecer, muitas vezes, significa escolher diferente.

    O equilíbrio antes da resposta

    Quando estamos feridos, queremos resposta imediata.

    Queremos sinal.
    Queremos reparação.
    Queremos confirmação.
    Queremos que a vida mostre logo quem tem razão.

    Mas Xangô ensina que justiça não é pressa.

    Nem toda resposta justa nasce no tempo da ansiedade.
    Nem toda verdade precisa ser anunciada com barulho.
    Nem toda situação se resolve pela força da reação.

    Às vezes, o primeiro ato de justiça é respirar.

    Voltar ao corpo.
    Voltar à oração.
    Voltar ao discernimento.
    Voltar ao centro.

    Porque uma decisão tomada fora do eixo pode gerar novas injustiças, inclusive contra nós mesmos.

    A justiça interior na vida cotidiana

    A justiça de Xangô não pertence apenas aos grandes conflitos.

    Ela também vive nas pequenas escolhas do dia.

    Ser justo consigo mesmo ao respeitar o próprio limite.
    Ser justo com o outro ao não manipular pela culpa.
    Ser justo com a palavra ao não prometer o que não se pode cumprir.
    Ser justo com o corpo ao não ignorar seus sinais.
    Ser justo com o tempo ao não desperdiçá-lo com aquilo que já sabemos que nos afasta da vida.
    Ser justo com a fé ao não transformá-la em fuga da responsabilidade.

    Justiça interior é espiritualidade aplicada.

    Não é apenas rezar por equilíbrio.
    É escolher com mais equilíbrio.

    Não é apenas pedir verdade.
    É viver de modo mais verdadeiro.

    Não é apenas invocar força.
    É aprender a sustentar a força com consciência.

    Uma prática simples de reflexão

    Antes de seguir, respire profundamente três vezes.

    Imagine uma pedra firme diante de você.
    Sobre ela, uma luz vermelho-dourada se acende com suavidade.
    Essa luz não julga.
    Ela apenas revela.

    Pergunte interiormente:

    Onde minha vida precisa voltar ao eixo?
    Qual verdade eu venho evitando?
    Que atitude justa começa em mim agora?
    Que palavra precisa ser honrada?
    Que limite precisa ser colocado com dignidade?

    Não force respostas.

    Apenas permita que a consciência se organize.

    Às vezes, a justiça começa como uma pequena clareza.
    Depois, essa clareza se torna decisão.
    Depois, a decisão se torna caminho.

    Xangô como mestre da maturidade

    Xangô não nos chama para uma espiritualidade infantil, baseada apenas em pedidos, pressa e transferências de responsabilidade.

    Xangô chama para uma fé adulta.

    Uma fé que ora, mas também age.
    Que pede clareza, mas também olha para a própria sombra.
    Que deseja justiça, mas também aceita aprender com a verdade.
    Que busca proteção, mas também pratica retidão.
    Que pede força, mas também amadurece o uso dessa força.

    A justiça interior é o momento em que deixamos de esperar que o mundo inteiro mude para que possamos finalmente nos alinhar.

    Nós começamos.

    Com uma palavra mais limpa.
    Com uma escolha mais consciente.
    Com um limite mais verdadeiro.
    Com uma oração mais sincera.
    Com uma postura mais reta diante da vida.

    Palavra de fechamento

    Xangô e a justiça interior nos lembram que nem toda batalha precisa começar fora.

    Algumas começam no silêncio do coração.

    No instante em que reconhecemos uma verdade.
    No momento em que paramos de negociar com aquilo que nos desalinha.
    Na coragem de assumir nossa parte.
    Na humildade de corrigir o caminho.
    Na firmeza de não abandonar a própria dignidade.

    Que a justiça de Xangô não seja buscada apenas como resposta para o mundo, mas como luz para a alma.

    Que ela nos ensine a viver com mais retidão.
    A falar com mais verdade.
    A escolher com mais consciência.
    A agir com mais equilíbrio.
    A amadurecer sem endurecer.

    Kaô Kabecilê, Xangô.

    Que a pedra firme a consciência.
    Que o fogo revele a verdade.
    Que o trovão desperte o coração.
    Que a justiça comece dentro.